• Ana Carina Nunes

Epigenética: a ciência que vai para além dos genes


A vida começa numa única célula que tem em si a informação genética que faz de nós seres irrepetíveis. Mas será que tudo o que se transmite de pais para filhos tem apenas origem nos genes? Ter uma alimentação equilibrada, praticar desporto e técnicas anti-stress, são hábitos que influenciam a saúde individual e que se transmitem de pais para filhos. A herança epigenética é tão importante que pode influenciar o risco de doenças na geração que se segue. É desta ciência que aqui se fala.

O que os nossos ancestrais sabiam e que hoje se esqueceu?

Através da história, as pessoas usaram a comida para proteger a sua saúde e crescer de forma saudável e criar crianças fortes e bonitas. Por outras palavras, usaram a dieta para reengenhar os seus corpos. Muitos de nós muitas das vezes gostaríamos de mudar a nossa aparência corporal e como nos sentimos, ou até mesmo se livrar de uma patologia que tenha. Hoje se sabe que as informações contidas em nosso genótipo não possuem controle exclusivo sobre nossa identidade. Sendo assim, a expressão dos genes contidos em nossas células é mediada por diversos fatores em que a informação não está contida apenas no alfabeto do DNA (ATGC).Quem nunca teve curiosidade em saber o porquê gêmeos idênticos se comportam e se desenvolvem de maneira diferente, se a sequência de DNA é a mesma em ambos? E como se originam os diferentes tecidos de nosso corpo, se o material genético contido no núcleo das células é o mesmo?Com o surgimento da Epigenética, algumas das lacunas no nosso conhecimento científico passaram a ser preenchidas. Mas o que é epigenética, e por que é tão importante?A epigenética é uma ciência que busca compreender como alterações na expressão de genes ocorrem sem alterações nas letras do alfabeto do DNA (ATCG).Para facilitar, suponhamos que a sequência de DNA que possuímos em nossas células, seria como o texto de um manual de instruções que explica como fazer todos os diferentes órgãos e tecidos que formam nosso corpo, a epigenética seria como se alguém utilizasse um pacote de marcadores de texto e usasse diferentes cores para marcar as partes do texto de maneiras diferentes. Por exemplo, eu poderia usar o marcador de cor verde para marcar partes do texto que precisam ser lidas com mais cuidado e com o marcador de cor vermelha para marcar partes que não são tão importantes.Também podemos imaginar que o DNA seria uma biblioteca e cada gene um livro de instruções, a epigenética agiria bloqueando alguns desses livros.O interessante de tudo isso é que os mecanismos epigenéticos fornecem as células uma ferramenta adicional para ajustar como os genes controlam a maquinaria celular sem alterar a sequência de DNA, e leva a modificações que podem ser transmitidas às células filhas – como se algumas partes destacadas do texto fossem transmitidas adiante. Assim, de uma certa forma, não está apenas a modelar o que realmente somos, mas também suas futuras gerações. Apesar de serem transmitidas, essas marcas são revertidas com o passar das gerações – em plantas, por exemplo, foi comprovado que essas marcas são perdidas após quatro gerações.

E se soubesses como usar a comida para fazer um “upgrade” no teu corpo a um nível genético?

Qualquer melhoria que já desejas-te para o teu corpo ou para a tua saúde virá da optimização da tua função genética.

Os teus genes são materiais especiais dentro de cada uma das tuas células que controlam a actividade coordenada na célula e que se comunicam com outros genes em outras células ao longo dos diversos tecidos do corpo. Eles são feitos de ADN, uma molécula antiga e poderosa que vive em nós.

Quando começas a perceber que um dos maiores presentes dados pela Mãe Natureza é a saúde genética, entenderás que afinal tens todas as possibilidades de ter uma óptima saúde.

A 26 de Junho de 2000, o código genético foi descodificado, e desde aí, investigadores e geneticistas falaram em conseguir reverter hipertensão, depressão, cancro, etc, através da manipulação do DNA. Mas infelizmente não aconteceu, e enquanto muitos descreviam esta situação como bloqueios de informação genética, e que “podiam ser fácilmente manipulados”, um novo campo ciêntifico chamado de epigenética, provava que esta assumpção erra errónea.

A epigenética vem ajudar-nos a compreender que afinal o genoma é dinâmico, um ser vivo, que cresce, aprende e que está em constante adaptação. Já se ouviu falar imensas vezes que houve mutações ou “maus genes”, mas a epigentéitca conta-nos o contrário, em que se precisares de óculos ou se aparecer um cancro ou até envelheceres mais rápido que o usual, podes ter genes perfeitamente normais. O que acontece de errado é como eles funcionam, ao qual os cientistas denominam como “expressão genética”. Assim como ficamos doentes quando não tomamos conta de nós correctamente, assim acontece também com os nossos genes.

No modelo antigo da genética, acreditava-se que as doenças advinham de danos ao ADN, chamadas de mutações, porções de código genético em que informação crucial tinha sido distorcida por um tipo biológico. Era acreditado que as mutações desenvolviam erros no ADN que se multiplicava dessa forma e que a saúde dos genes era depende duma quase sorte de “dados lançados”. Por décadas, as mutações foram presumidas como a causa raíz de todas as doenças.

O princípio subjacente é que temos pouco ou nenhum controle sobre o ADN, mas a epigenética identificou um fantasma, dando-nos uma visão diferente da molécula mais fantástica da mãe natureza.

A epigenética traduz-se em "sobre o gene". Os pesquisadores de epigenética estudam como os nossos genes reagem ao nosso comportamento, e descobriram que sobre tudo o que comemos, pensamos, respiramos ou fazemos, directa ou indirectamente, afecta o gene e todo o seu desempenho.

O desempenho desses efeitos são transportados para a próxima geração de filhos e assim sucessivamente, onde podem ter resultados fantásticos. Em experiências de laboratório, os pesquisadores mostraram que, simplesmente alimentando ratos com diferentes misturas de vitaminas, eles podem alterar e minimizar o peso adulto da próxima geração e diminuir a susceptibilidade a doenças, e esses novos desenvolvimentos epigenéticos podem ser repassados aos netos.

Parece que subestimamos o ditado "Nós somos o que comemos", mas eu digo: "Nós somos o que digerimos". Não apenas o que comemos nos afecta até ao nível dos nossos genes, mas todo o nosso corpo foi esculpido, em parte, pelos alimentos que os nossos antepassados comeram (ou não comeram) gerações atrás.

O conjunto de evidências compiladas por pesquisadores epigenéticos que trabalham em todo o mundo, sugere que a maioria dos problemas de saúde das pessoas não provêm de mutações herdadas, como se pensava anteriormente, mas de factores ambientais prejudiciais que forçam os genes a se comportarem mal, ligando-se e desligando-se na hora errada. E assim, genes que antes eram saudáveis podem, a qualquer momento das nossas vidas, começar a agir como doentes.

Os factores ambientais que controlam o desempenho dos nossos genes variam de minuto a minuto, e cada uma das suas células reage de maneira diferente. Então pode começar a imaginar o quão complexo é o sistema. É essa complexidade que torna impossível prever se um determinado fumador desenvolverá cancro de pulmão, de cólon ou até nenhum.

A modulação epigenética é tão elaborada e dinâmica que é improvável que alguma vez desenvolvamos uma correcção tecnológica para a maior parte do que nos aflige. Até agora, pode parecer que epigenética é uma má notícia, mas, finalmente, a epigenética está a mostrar que a loteria genética é algo mais do que aleatória. Embora alguns detalhes possam sempre iludir a ciência, a linha base é clara: nós controlamos a saúde de nossos genes.

O conceito de saúde dos genes é simples: os genes funcionam bem até serem perturbados. Forças externas que perturbam o fluxo e refluxo normal da função genética podem ser divididas em duas grandes categorias: toxinas e desequilíbrios nutricionais. As toxinas são compostos nocivos que podemos comer, beber ou respirar em nossos corpos, ou até fabricar internamente quando experimentamos stress indevido. Os desequilíbrios nutricionais são geralmente causados por deficiências, falta de vitaminas, minerais, ácidos gordos ou outras matérias-primas necessárias em nossas células. Podemos não ter controle sobre a qualidade do ar que respiramos ou conseguirmos minimizar o stress. Mas você tem controle sobre qual pode ser o mais poderoso dos factores reguladores de genes: A comida!

A saúde dos nossos genes representam um tipo de herança. Duas maneiras de pensar sobre essa herança, a riqueza genética e momentum genético, ajudam a explicar por que algumas pessoas podem abusar dessa herança e, por um tempo, se safar dela. Todos nós vimos a super modelo de 20 anos que abusa de seu corpo com cigarros e outras drogas e uma alimentação de fast-food. Durante anos, a sua bela arquitetura esquelética ainda brilhará. Abaixo da superfície, a má nutrição privará os ossos do que eles precisam, diminuindo a sua saúde prematuramente.

O tecido conjuntivo que suporta a sua pele começará a quebrar, roubando a sua beleza. Mais importante, dentro dos seus ovários, dentro de cada óvulo, os seus genes serão afectados. Essas alterações genéticas dissuasivas significam que seu filho terá perdido o "momento genético" e não terá o mesmo potencial de saúde ou beleza que a mãe. Ele ou ela pode vir a beneficiar do considerável portfólio financeiro da mãe, mas, infelizmente, a riqueza genética foi reduzida.

Todos nós beneficiamos não apenas dos nossos pais e avós, dos hábitos alimentares saudáveis (aqueles que tinham), e também de todas as nossas gerações, os nossos ancestrais, que ao comer os alimentos certos mantinham e até melhoravam a herança genética que acabaria por construir um rosto bonito no útero.

Que desperdício de riqueza genética esta, uma medida intacta da programação epigenética que afectou, e cada vez mais afecta, muitos de nós.

Claro que só a epigenética não é responsável por todas as repostas que ainda não temos, mesmo com os mecanismos genéticos e epigenéticos já conhecidos, existem outros mecanismos desconhecidos que também podem estar envolvidos. Entretanto, algo que não devemos negar é que a influência dos hábitos de nossos pais e antepassados juntamente com nossos hábitos atuais são os verdadeiros responsáveis por nossa identidade atual e qualquer influência ambiental capaz de alterar nossa composição genética pode influenciar nas gerações futuras.

Sendo assim é observado que a dieta é capaz de promover alterações diretas na transcrição gênica, tornando assim a epigenética nutricional um campo de extrema importância para a humanidade já que o desenvolvimento de muitas doenças, por exemplo os cancros está diretamente ligado a alterações epigenéticas, já que fatores nutricionais podem ser responsáveis por desativar genes supressores de tumores ou seja, genes que evitam proliferação celular excessiva, havendo assim grande interesse em encontrar fontes dietéticas que possam reverter ou evitar estas alterações prejudiciais. Se tornando assim cada vez mais evidente a ligação de uma boa alimentação com uma maior qualidade e longevidade da vida humana.

Fontes:

Transposable Elements: Targets for early nutritional effects on epigenetic gene regulation, Waterland RA, Molecular ans Cellular Biology, August 2003, vol. 23, no. 15

Nutritional ang Physical Degeneration, Price W, 1945

Weinhold, B. Epigenetics: the science of change. Environ Health Perspect, 114(3): A160-A167, 2006.

Jaenisch, R.; Bird, A. Epigenetic regulation of gene expression: how the genome integrates intrinsic and environmental signals. Nature Genetics, 33: 245-54, 2003.

https://www.theguardian.com/science/occams-corner/2014/apr/25/epigenetics-beginners-guide-to-everything

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