• Ana Carina Nunes

Felicidade


Lembro-me que em miúda me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande. Na verdade e como todas as meninas de tenra idade passei por diversas fases com profissões que lhes são mais próximas como a profissão da mãe ou a de cabeleirra , bailarina e cantora. Porém, vivi numa ilha durante cerca de 2 anos dos 6 aos quase 8 anos, o que me levou a ter uma perspectiva diferentes das coisas e da vida. uma delas foi precisamente o sentido de liberdade e felicidade! De facto, até então vivi num prédio com muitos velhinhos e numa rua movimentada, e portanto não podia brincar na rua e não tinha vizinhos da minha idade para brincar comigo. Quando fui viver para os Açores encontrei todo um mundo novo por descobrir: vivia numa espécie de condomínio particular (para os militares) tinha a escola do outro lado da estrada, com campos de desporto e diversas infraestruturas de recreio, podia correr, andar de bicicleta, apanhar flores com uma grupo de "amiguinhos" mais ou menos da minha idade. E foi ai que percebi que de facto me senti livre e feliz! Infelizmente, tive de voltar ao continente por motivos de força maior, o que me casou uma tristeza enorme, quer pela situação que originou este regresso, quer pela privação novamente desta liberdade e felicidade que uma criança precisa. Nessa altura sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande eu respondia prontamente: "Quero ser livre e feliz!". O olhar das pessoas era constrangedor e irónico. Muitas vezes retorquiam: "- mas olha que para seres livre e feliz tens e trabalhar muito e ter muito dinheiro."

Desde aí e todos os anos que vão passando sinto que o meu conceito de felicidade se vai alterando. Não que me considere inconstante ou incoerente, mas efectivamente me questiono em quase todos os inícios de ano o que de facto é isso da felicidade, e a idade tem demonstra que vamos aprendendo a relativizar determinadas coisas em detrimento de outras.

Na verdade a felicidade é um conceito nosso. Branco, ocidental, moderno. Crescemos com essa ideia: devemos encontrar alguém que nos faça felizes, um emprego que nos faça felizes, uma casa onde sejamos felizes. Alcançar estes objectivos - que simultaneamente somos levados a acreditar que fomos nós que escolhemos, mas que também nos foram impostos - torna-se o mote das nossas vidas.

Não vou analisar a felicidade arqueologicamente. Certamente que ajudaria, mas não quero fazer desta publicação um ensaio. Mas posso procurar as raízes nas nossas vidas. As listas que fizeram por nós, os conceitos que importámos sem questionarmos, os caminhos que trilhámos para chegarmos ao fim da linha e, tendo tudo, parece que temos tão pouco. Certamente que existirão mais razões para sermos felizes do que muita gente. A velha argumentação do "Come tudo o que tens no prato que há crianças a morrer à fome em África" parece mais uma maldição do que um conselho. E no final continua a não ser o suficiente porque continuamos a medir a nossa felicidade face à bitola dos outros.

E depois de olhar para dentro, olho para fora. A maneira como as pessoas conversam quando se encontram, medindo sucessos, tentando mascarar as suas vidas miseráveis, gozando dos outros que partem em busca dos seus sonhos, mastigando a inveja enquanto empolam o peito com as suas certezas importadas. E no fundo, por mais que se esforcem por mostrar o oposto, também elas não são felizes. Podem sentir alguns momentos mais eufóricos: se a equipa ganhar o campeonato, se os morangos descerem de preço no Continente, se os saldos da Zara chegarem mais cedo. E voltam para as suas casas de sonho, conduzindo o carro da marca que as deveria fazer feliz e que lhes foi vendido com a intenção de as fazer chegar lá mais rápida e confortavelmente, despem a roupa que não lhes traz felicidade por mais peças que comprem, olham para os seus corpos magros e atléticos sentindo que há sempre algo mais a melhorar, e enfiam-se nos lençóis para mais uma noite de sonhos ébrios. Na manhã seguinte recomeçam em piloto automático, à pressa, evitando reflectir demasiado no que a noite anterior não conseguiu esconder.

Então, o que é a felicidade? E eu sou feliz? E tu, és feliz? E devemos realmente ser felizes? E o que é a felicidade realmente?

A “Felicidade” é algo que todos nós consciente ou inconscientemente acabamos por perseguir e tanto buscamos momentos que nos dêem prazer imediato como buscamos a nossa realização e propósito de vida. É importante que a nossa vida seja feita de momentos de prazer máximo. Como por exemplo jogar à bola, sair à noite, estar com os amigos, comer uma boa fatia de bolo de chocolate, comprar um vestido ou uma peça de roupa ou até mesmo comprar um carro. São tudo momentos que de facto ajudam a elevar os nossos índices de Felicidade momentâneos mas todos sabemos que a sua durabilidade e sustentabilidade são pouco duradouras. Ou seja, estamos constantemente em busca do que nos dá prazer agora e nunca estamos satisfeitos. Muito característico das nossas crianças que buscam sempre aquilo que não têm nunca estando satisfeitas com o que têm.

Por outro lado podemos ter uma visão Eudaimónica da “Felicidade” que é a junção do grego Eu que significa “bom” e daemon que significa “espírito”. Na sua essência Eudaimonismo significa lutar por si próprio e ir atrás daquilo que você acredita independentemente dos resultados que estejam a acontecer. Felicidade Eudaimónica significa muitas vezes “sofrer” por algo que nós sabemos que vai resultar. Significa ser “Resiliente” pois quantas vezes fazemos esforços hoje com o objetivo de sermos felizes amanhã. É tudo o que Eudaimonismo é.

Assim existem 2 tipos de personalidades: Umas pessoas com personalidade mais Hedónica que buscam prazer imediato e só se preocupam com o agora e outras com personalidade Eudaimónica em que lutam e resistem às adversidades para perseguirem os seus objectivos.

Não pretendo cair no erro de dizer que uma é melhor do que a outra. Talvez um equilíbrio entre as duas seja o mais indicado. É importante potenciarmos na nossa vida momentos hedónicos mas é igualmente importante cultivarmos o nosso propósito e significado para a nossa vida.

Felicidade, para mim, não é a ausência de tristeza. A partir dessa constatação, ser feliz ficou muito mais fácil. Ser feliz é sentir as dores e as tristezas com a consciência de que elas fazem parte do nosso caminho e que é através delas que vamos nos aproximando cada vez mais do nosso propósito. É pela tristeza que aprendemos a valorizar os momentos de alegria, é através dos momentos difíceis que nos fortalecemos e que descobrimos que somos capazes de muito mais e isso é felicidade. Viver uma vida em felicidade não significa ser feliz o tempo todo, até porque o ser humano é insatisfeito por natureza e portanto é impossível ser feliz o tempo todo… mas só temos consciência do bom porque já provamos o menos bom .

E se alguém me perguntasse aqui e agora o que é para mim a felicidade, só poderia responder uma coisa: a ausência de medo. Não sei bem porque mas ainda não me libertei totalmente do que os outros à minha volta dizem. É por isso que luto, por um filtro mais eficaz, que me permita a mim e à minha família abafar o que não interessa e construir uma vida equilibrada, com as nossas regras e com liberdade que merecemos.

Na nossa busca pela felicidade, frequentemente desorientamos-nos, perdemos o foco, não entendemos exactamente o que nos move e o que de fato é importante para a nossa vida. Cabe a cada ser humano, que busca a felicidade, uma reflexão profunda sobre os seus anseios e sobre o que pode fazê-lo infeliz para, então, buscar a mudança necessária o leve novamente a uma condição de bem-estar e de felicidade. O entendimento profundo e o discernimento sobre as coisas que são realmente importantes definem o primeiro passo para uma existência plena e livre das aflições. Tais aflições podem nos fazer perder toda uma vida em meio a um nevoeiro de incertezas e de apego a coisas pequenas e transitórias.

Uma vida de dias apenas felizes é uma vida sem transformações e estamos vivos para nos transformarmos em seres melhores a cada dia! Esta questão está sempre em aberto, porque depende da atitude de cada um a todo momento. A arte de viver ensina a transmutar a aflição em sabedoria, e torna possível uma satisfação duradoura em relação a si mesmo, aos outros e à vida.

O cidadão comum perde muita energia fugindo da dor ou buscando anestesia psicológica. Rádio, televisão, redes sociais, jogos viciantes e outras formas de “diversão” ajudam, literalmente, a “passar o tempo”, como se o tempo não tivesse valor e pudesse ser esbanjado. Formas inúteis de lazer entorpecem-nos e desviam a mente das questões centrais da vida. Mas o velho dilema entre dor e fuga da dor deve ser olhado com calma. Quando a dor é exagerada e vista como algo central, podemos querer fugir dela por meio de algum dogma ou algum salvador, ou fechar os olhos através do refúgio na comodidade fácil, o que causa mais sofrimento a longo prazo. Podemos desenvolver uma espiritualidade mecânica e supersticiosa, ou cair no outro extremo, optando por um materialismo igualmente destituído de bom senso. O falso abismo entre prazer e sofrimento faz com que o caminho da sabedoria seja pouco compreendido e que seja encarado de modo contraditório. De um lado, a espiritualidade é descrita como o melhor modo de alcançar a felicidade e o bem-estar permanente. De outro lado, ela é descrita como o caminho da cruz, do sofrimento e do sacrifício. Onde está a verdade? O primeiro efeito prático deste exercício espiritual é que começamos a pensar mais profundamente sobre a vida. O nosso discernimento aumenta, e vemos o resultado desagradável dos prazeres promovidos pela sociedade de consumo.

Pensem nisso e mantenham a vossa mente saudável !

#felicidade #mentesaudavel

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