• Ana Carina Nunes

(Im)perfeição || (Im)perfection


Todos nós cometemos erros ao longo da vida. Isto significa que não podemos ser felizes? Temos que nos julgar eternamente pelos erros cometidos? A resposta é não, porque na nossa própria imperfeição reside a perfeição. Todos nós podemos ser perfeitamente imperfeitos.

Na verdade, durante muito tempo tive o culto do perfecionismo. Este síndroma quase obsessivo acompanhou-me durante toda a adolescência e juventude insistia em questionar: “mas e se não ficar bom o bastante? E se eu errar? E se as pessoas não gostarem?. Na verdade, perfeccionismo não é dedicação e empenho para fazer o melhor trabalho. Por definição, trata-se de um medo excessivo de cometer erros, de ter qualquer ação que possa estar aquém do esperado segundo algum critério. O que o perfeccionista faz, no fundo, é evitar muitas maneiras a hipótese de falhar, de receber uma crítica de si ou dos outros. Quem já não ficou muitas vezes a aguardar o momento perfeito, o conhecimento ideal sobre um assunto, o equipamento mais adequado? E ficamos estagnados, à espera de algo que nunca chega – nem vai chegar.

Percebi que este tema me estava a afetar a nível pessoal e profissional, criando-me sentimentos de insegurança, rejeição, inferioridade me impedia de arriscar e decidir a tornar-me uma pessoa insatisfeita sem motivos. O foco passava a estar mais no que está faltando, ou no que está errado do que efectivamente naquilo que temos e que nos é possível sem perfecionismos.

Decidi que tinha de ultrapassar este meu “defeito”. Pesquisei alguma literatura sobre este tema e vai dai comprei há cerca de uns 7 anos um livro chamado "The Black Swan". O livro explica que um Cisne Negro é um acontecimento altamente improvável que reúne três características principais: é imprevisível; produz um enorme impacto; e, após a sua ocorrência, é arquitectada uma explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade. Por que razão não temos consciência do fenómeno dos cisnes negros antes da sua ocorrência? Parte da resposta, segundo Taleb, reside no facto de os seres humanos estarem absolutamente programados para aprender coisas específicas quando, pelo contrário, deveriam concentrar-se em generalidades. Somos, portanto, incapazes de avaliar verdadeiramente as oportunidades, demasiado vulneráveis ao impulso de simplificar, narrar e classificar, para além de não sermos suficientemente abertos para recompensarmos aqueles que conseguem imaginar o «impossível».

Os mais atentos dirão que o livro, é um profundo manifesto de alerta para a fragilidade da natureza humana essencial. Na verdade, Taleb chama de cisne negro – recuperando uma metáfora que pretende designar algo de extremamente raro – todas as ocorrências que possuem um altíssimo grau de improbabilidade de acontecerem, que causam um impacto extremo e que apenas posteriormente são alvo de análises articuladas e bastante lógicas.

Agimos como se tudo fosse acontecer naturalmente, como se somente existissem cisnes brancos, perfeitos. Ignoramos os problemas passados e a partir deles, não adquirimos a precaução necessária para as possíveis adversidades. “Um pequeno número de cisnes negros explica quase tudo no mundo, do sucesso de idéias, religiões, às dinâmicas de eventos históricos e elementos de nossas vidas pessoais…” O efeito dos cisnes negros vem só aumentando “…o mundo começou a tornar-se mais complicado, e os eventos comuns, aqueles que discutimos e estudamos e tentamos prever por meio de leitura de jornais, tornam-se cada vez menos importantes.” Portanto, não devemos focar-nos somente no específico, mas ficarmos atentos ao que acontece no geral.Abram os olhos e estejam preparados para identificar um “cisne negro”.

Entretanto o livro deu origem a um filme em 2011 galardoado pelos óscares numa versão mais "light" que retrata a busca pela perfeição, a dicotomia entre o bem e o mal de Nina, uma bailarina espetacular, sempre com os passos suaves, delicados e perfeitos. Quando consegue o papel de Rainha Cisne em “O Lago dos Cisnes”, vê-se numa terrível encruzilhada: ela desempenha muito bem o seu papel como cisne branco, mas já como o cisne negro não. Para que representasse o cisne negro ela teria que ir além de suas expectativas, teria que fazer passos sensuais, perversos e fortes.

Afinal que padrão de vida é aquele do cisne branco/negro?! Será que estamos assim tão exigentes que para obter sucesso, tudo vale, até tirar olhos e matar ou morrer?! Temos iphones, ipads, tecnologias de ponta, etc, tudo à fartazana e, mesmo assim, quase todas as pessoas se sentem infelizes (ou pelo menos insatisfeitas).Afinal o que falta?

A resposta é tão simples como complexa: DESEJO, nada mais!!! Ou como eu costumo dizer fazer as coisas acontecerem. Ora nem a facilidade produz bons efeitos, nem a exigência cega e atroz busca pela perfeição nos alimenta a alma. Ambos fazem falta, sim, tal como o dia e a noite, o sol e a lua, mas a luz de uma lâmpada também exige um padrão: polaridades(+/-) e um filamento. Caso contrário dá-se um curto-circuito!

Hoje em dia, nem a escola, nem os pais, nem os filhos, nenhum humano consegue estar nesta matriz de circuito 24h por dia, de polarização de ambas as coluna acompanhadas por um filamento forte e resistente. O bem e o mal existem e sempre existirão. Por isso, optamos por outros padrões patéticos que "exigem" de nós pequenas doses de energia, temporárias, todavia. Preferirmos esse falso movimento trôpego do cisne que para se tornar mais branco e notável teve de se sujar de sangue e revelar o pior de si.

A crise que se vive actualmene resulta muito disto: em querer acelarar o mundo sem travões, dominar o Universo que não é dominável, em dar a volta ao texto sem outro vocabulário. A solução esta nesse lobo mau, que todos temos dentro de nós e que se alimenta com a comida que lhe damos. O segredo está em domesticá-lo!!! A formação de hoje está mais 'moderna' sim, com outras infra-estruturas, mais capazes de responder com eficácia e celeridade ao 'mundo moderno'. Mas quem não acompanha esse ritmo fica para trás. O problema é que a 'vitamina' a mais não resolve, só atrapalha. Aliás, pode torna-se cancerígena. E todos se esquecem disso. Ora é-nos pedido perfeccionismo e competição a todo o custo para vencer no mundo do trabalho, mesmo que para isso se tenho de fazer certos sacrifícios e passar por cima de tudo e todos. Mas são “skills” como estas, atualmente em vigor, "upgrades" deste tipo que continuam a criar cada vez mais cisnes negros no mundo.

Os tempos mudam, mas nem sempre mudam as vontades. Chegamos a um ponto muito perigoso da vida, onde tudo se dilui em confusão e trapalhice. Ou é competição e dureza, ou é facilitismo e indolência. Como dizia o meu Pai “Mares calmos nunca fazem bons marinheiros”. Por isso, há que remar contra algumas marés e erguer a haste de uma consciência que teima em não chegar.

Ser diferente não é o fim do mundo. Ninguém é perfeito e nunca será! O mundo sempre teve que lidar com defeitos e diferenças, e na realidade isso é o que faz a vida interessante. Aprender a lidar com os nossos defeitos é uma ótima prova de autoconhecimento! É reconfortante compreender que nem tudo precisa sair da forma como idealizamos. Errar faz parte do caminho, e aceitar a nossa vulnerabilidade traz coragem para viver, de fato, o que sonhamos e o que nos faz bem.

De qualquer forma, qualquer ser humano pode ser perfeitamente imperfeito. Dentro de todos nós existe sempre o desejo de melhorar, a necessidade de ser mais feliz ou a imagem utópica de um mundo perfeito.

Achamos que errar é o pior fracasso, mas não. Estamos só a viver, e viver não é acertar o tempo todo. Talvez o melhor caminho para a tal perfeição na vida seja mesmo olha para o mundo de forma imperfeita e vulnerável. Porque, quando não nos satisfazemos mesmo depois de tanto empenho ou esperamos a vida toda para nos tornarmos prontos e “bons o bastante” para enfim começar a fazer, corremos o risco de perder oportunidades incríveis e únicas, além de não honrar os talentos que só nós temos por sermos de facto diferentes e imperfeitos.

Só depende de nós, saber lidar com este sentimento. Lembrem-se que não é preciso construir algo perfeito, mas sim algo melhor!

We all make mistakes throughout our lives. Does this mean we can not be happy? Do we have to judge eternally for our mistakes? The answer is no, because in our own imperfection lies perfection. We can all be perfectly imperfect.

In fact, for a long time I had the cult of perfectionism. This almost obsessive syndrome accompanied me throughout adolescence and youth insisted on questioning: "but what if it does not get good enough? What if I make a mistake? What if people do not like ?. In fact, perfectionism is not dedication and commitment to do the best job. By definition, it is an excessive fear of making mistakes, of having any action that may fall short of what is expected according to some criterion. What the perfectionist does, in essence, is to avoid in many ways the hypothesis of failing, of receiving a critique of self or others. Who has not often been waiting for the perfect moment, the ideal knowledge on a subject, the most appropriate equipment? And we are stagnant, waiting for something that never arrives - nor will it arrive.

I realized that this issue was affecting me personally and professionally, creating feelings of insecurity, rejection, inferiority prevented me from risking and deciding to become a person unsatisfied without reasons. The focus was to be more on what is lacking, or on what is wrong than actually on what we have and that we can without perfectionism.

I decided that I had to overcome this "my fault". I researched some literature on this subject and go from there bought about 7 years ago a book called "The Black Swan". The book explains that a Black Swan is a highly improbable event that has three main characteristics: it is unpredictable; produces a huge impact; and, after its occurrence, an explanation is made that makes it appear less random and more predictable than it actually is. Why are we not aware of the black swan phenomenon before its occurrence? Part of the answer, according to Taleb, is that human beings are absolutely programmed to learn specific things when, on the contrary, they should concentrate on generalities. We are, therefore, unable to truly evaluate opportunities, too vulnerable to the drive to simplify, narrate, and classify, as well as not being open enough to reward those who can imagine the "impossible."

The most attentive will say that the book is a profound manifesto of alertness for the fragility of essential human nature. In fact, Taleb calls the black swan - retrieving a metaphor that claims to be something extremely rare - all occurrences that have a very high degree of improbability to occur, that cause an extreme impact and that only subsequently are the subject of articulated and quite logical analyzes .

We act as if everything would happen naturally, as if there were only white, perfect swans. We ignore past problems and from them, we do not get the necessary precaution for possible adversities. "A small number of black swans explains almost everything in the world, from the success of ideas, religions, to the dynamics of historical events and elements of our personal lives ..." The effect of black swans only increases "... the world began to become more complicated, and the common events, those we discuss and study and try to predict through newspaper reading, become less and less important. "So we should not focus only on the specific, but be aware of what happens in the General. They open their eyes and are prepared to identify a "black swan."

However, the book gave birth to a 2011 Oscar-winning film in a more "light" version that portrays the pursuit of perfection, the dichotomy between good and evil of Nina, a spectacular dancer, always with soft, delicate and perfect steps . When she gets the role of Swan Queen in "Swan Lake," she finds herself at a terrible crossroads: she plays her role very well as a white swan, but as the black swan does not. To represent the black swan she would have to go beyond her expectations, she would have to take sensual, perverse and strong steps.

After all, what standard of living is that of the white / black swan ?! Are we so demanding that to succeed, anything goes, until we take our eyes and kill or die ?! We have iphones, ipads, cutting-edge technologies, etc., all to the brim and even then, almost all people feel unhappy (or at least unsatisfied). Anyway what is missing?

The answer is as simple as complex: DESIRE, nothing more !!! Or as I usually say to make things happen. Neither does ease produce good effects, nor does the blind and terrible demand for perfection feed us the soul. Both are lacking, yes, like day and night, the sun and the moon, but the light of a lamp also requires a pattern: polarities (+/-) and a filament. Otherwise a short circuit!

Nowadays, neither the school, nor the parents, nor the children, any human can be in this matrix of circuit 24h a day, polarization of both spine accompanied by a strong and strong filament. Good and evil exist and will always exist. So we opted for other pathetic patterns that "require" us small doses of energy, temporary, nonetheless. Let us prefer this false swift movement of the swan, which to become whiter and more noticeable had to be smeared with blood and reveal the worst of itself.

The current crisis is very much the result: in wanting to accelerate the world without brakes, to dominate the Universe that is not dominated, to turn the text around without another vocabulary. The solution lies in this bad wolf, which we all have inside us and which feeds on the food we give it. The secret is to tame it !!! Today's formation is more 'modern', yes, with other infrastructures, more capable of responding effectively and swiftly to the 'modern world'. But those who do not keep up with this rhythm stay behind. The problem is that the 'vitamin' does not solve, it only gets in the way. In fact, it can become cancerous. And everyone forgets it. Now we are asking for perfectionism and competition at all costs to win in the world of work, even if for this I have to make certain sacrifices and go over everything and everyone. But "skills" like these, currently in force, are "upgrades" of this type that continue to create more and more black swans in the world.

Times change, but wills do not always change. We come to a very dangerous point of life, where everything is diluted in confusion and trapalhice. Either it is competition and hardness, or it is easy and indolent. As my Father said, "Calm seas never make good sailors." Therefore, we must paddle against some tides and raise the stem of a conscience that stubbornly fails to arrive.

Being different is not the end of the world. No one is perfect and never will be! The world has always had to deal with flaws and differences, and in fact that is what makes life interesting. Learning to deal with our faults is a great test of self-knowledge! It is comforting to realize that not everything has to come out the way we idealize. To err is part of the way, and accepting our vulnerability brings the courage to live, in fact, what we dream and what makes us good.

In any case, any human being can be perfectly imperfect. Within us all there is always the desire to improve, the need to be happier or the utopian image of a perfect world.

We think failure is the worst failure, but no. We are just living, and living is not right all the time. Perhaps the best way to such perfection in life is to look at the world in an imperfect and vulnerable way. Because when we are not satisfied even after so much effort or we wait our whole lives to become ready and "good enough" to finally start to do, we run the risk of missing out on incredible and unique opportunities, as well as not honoring the talents that alone we have to be in fact different and imperfect.

It is up to us to know how to deal with this feeling. Remember that you do not have to build something perfect, but something better!

#perfeição #cisnenegro #improvável

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